Contos e crônicas sobre tipos interessantes, causos e lugares conhecidos durante mais de 40 anos viajando sobre motos, barcos de pesca e botinas. Colaboram cariocas, coroas nascidos nos anos 40 e que se recusam a pendurar a mochila.

Quarta-feira, Julho 28, 2004


TALENTOS ESPECIAIS

Na minha infância , que ainda não está devidamente encerrada segundo alguns, aprendi que todo moleque (e moleca também) tem uma habilidade extraordinária que o diferencia dos outros mortais.
Algumas destas habilidades são ridículas, mas nem por isso menos admiráveis.
É de modo geral assim na natureza, quem não é bom de dente é bom de corrida , ou tem o faro aguçado e sabe pular rápido... por ahe vai.

Mas como só acontece comigo registrar estas bobagens... eu tive um amigo que era o único capaz de jogar uma amêndoa sobre os prédios da Av. Portugal e faze-la cair na baia de Guanabara. O cara era bom de pedrada mesmo. mas especializou-se no arremesso olimpico de castanha.

Não me perguntem como começou isso, mas eu me lembro de inúmeras apostas ganhas, em testes que para evitar fraudes havia um método depurado.
Colocar testemunhas sobre os terraços não era suficiente até porque todos eram amigos e o ganho das apostas eram bebidos pela ratatuia ...então era necessário uma assinatura indelével na castanha projétil.Houve até a suspeita de alguem escondido atirando dos predios uma segunda castanha mas isto era lenda... nunca aconteceu. Era puro choro de perdedor.

Esta assinatura na fruta, era uma dentada do Alex , que tinha os dentes trepados e que faziam uma marca inimitável na castanha e esta era a sua habilidade na dupla: marcar as castanhas que o outro atirava (não me lembro mesmo o nome do puto).
Sua mordida tinha por assim dizer : fé pública. Era o carimbo que chancelava o projetil porque não havia outro moleque com dentes tão desencontrados. O cara tinha incisivo até no céu da boca.

Assim a castanha era reconhecida após seu resgate nas águas da Baía: pelo carimbo dental do Alex cuja única habilidade a lembrar era esta : boca de marcar castanha!

É claro que ele era uma parte menor da parceria com o anônimo atirador de castanhas, que caiu no ostracismo ... mas dele eu lembro ... e também das marcas esquisitas que sua dentuça deixava nas cascas verdes da minha infância.

Grande Alexandre... sumiu ... deve estar cheio de netos... tudo com dentinho trepado ou quem sabe cheios de aparelhos ortodentais, mas daqueles brabésimos... que tem elástico preso até nas orelhas.




Segunda-feira, Julho 26, 2004






VILÃO DAS ANTIGAS!

Dei para a aninha minha neta, a noticia do acidente de trabalho que vitimou seu vilão mais detestado, o Capitão Gancho, que teria limpado o rabo com a mão errada...

Imediata e convincentemente ela franziu o nariz e tascou na bucha:

- Dããã... Vô... o Capitão Gancho não limpa a bunda nunca!

Discutir eu? Nem pensar... com essa lógica insofismável... e é certo que vilão antigo é dos bons!




Quarta-feira, Julho 21, 2004


UBÁ AGAIN

Atenção mineirada... hoje logo mais estaremos juntos lá no Bar do Paulinho no Eldorado.
To zarpando...




Domingo, Julho 18, 2004


A MUDANÇA DAS FORMIGAS

No inicio eram poucas e discretas zanzando around no meu computador.
Havia inclusive a suspeita de que estavam morando no teclado e é claro, isto gerou uma serie de desconfianças entre os familiares.

Trocaram-se acusações mútuas de conivência com os insetos, alguém estaria trazendo lanchinhos para o computador e babando migalhas sobre os periféricos e até mesmo a eficiência da Dorinha nossa personal-diarista foi colocada em cheque.
Se estes comentários parassem, as coisas se ajeitavam mas... sacumé o jogo da culpa... é como uma bola de boliche quando lançada só resta esperar pelo score de derrubadas.

Andou dando pau na máquina e imediatamente foi lançada a hipótese da Dorinha ter assumido a ofensiva jogando Baygon nas ventilações e teclas.
Há também a interessante Teoria do Desequilíbrio Ecológico que sugere que as guimbas e cinzas de cigarro funcionavam como repelente natural Anti-Formigas e que o repentino incremento de bugs e vírus pode ter sido causado pela campanha local contra o tabaco.

O fato é que as visitas deixaram de ser esporádicas e o avistamento de várias formigas reunidas e assumidamente indiferentes por serem notadas fez que suspeitássemos de um complô de insetos altamente organizados e quem sabe se comunicando quando estamos online e reunindo informações para seilá que planos.

A coisa se agravou por estes dias quando o pessoal começou a notar que todas andavam na mesma rota... apenas sem precisar de onde vinham e nem para onde iam.
Aquele ar mineirinho inocente que não sabe doncovim-oncotô-proncovô sumiu da cara das bichas e sua atitude neste momento é mais cagueiprocestudo.

Até este momento minha mulher se manteve politicamente neutra como um Suíço, mas há coisa de uns dois dias, sacou que de vez em quando passa uma carregando o que parece ser um grão de arroz cozido.

Primeiro sobrou para os suspeitos de sempre que comem fora da mesa... eu e minha neta.
Como ando segurando os carbohidratos meti logo um álibi no regime antes de iniciarem o inquérito fórmico-criminal.
Desafortunadamente para as insetas eu estava presente diante da passagem discreta de uma mais parrudinha carregando o inaudito arroz. Aliás é a única discrição que lhes sobrou é passar sem chamar muita atenção quando trazem o arroz-maldito.

Não sei se influenciado pelos Cientistas Forenses do canal Discovery, o fato é que o grãozinho branco não resistiu a uma observação mais detalhada e revelou-se uma larva viva, suspeita agora de ser um Bebê-formiga.

Esta atual situação de alerta transformou a mim e outros membros da família de um bando de fofoqueiros desunidos numa solida linha de defesa do lar da família e da propriedade.

Neste momento estamos mobilizados e em Defcom Amarelo... mas perdura ainda um racha entre a oficialidade do nosso Estado Maior.

Uns acham que devemos apelar para armas químicas de destruição em massa e já, mas outros acham que devemos entender antes e de forma estratégica, quais as verdadeiras intenções do inimigo.
O que não entendo é o que a porra de um formigueiro vê de promissor em casa de diabético.
A menos que a Lenda de Lolita... do grande esconderijo perdido de bombons e doces, seja verdadeira e tenha sido descoberto... eu não consigo ver interesse real em Stevia e Dietil.

Como eu jamais me mudaria sem carregar os meus filhos ou me lançaria numa guerra sanguinária sem esconde-los em segurança antes, sou da opinião que devemos lançar antes uma sólida campanha de espionagem que esclareça suas reais intenções.

Neste momento exato... estou no escuro da varanda seguindo um grão de arroz com origens e destinos desconhecidos, mas a Generala está preparando os mísseis e helicópteros para atacar massivamente a faixa de Gaza, destruindo os redutos do inimigo, mas enquanto isso comete um assassinatozinho (plec!) discreto aqui e outro ali, no velho estilo Ariel Sharom... mas se a minha formiga perceber a ação, vai disfarçar e mudar de rota escondendo o leite... digo o Arroz-trangênico!

É sempre assim... o nível tático sempre fudendo o estratégico...

Se vocês tem notado algo semelhante em seus periféricos, de estranho ou suspeito... informem o quanto antes nos comments para investigarmos possíveis ligações com os fatos relatados aqui.

Desculpem se cortarmos subitamente os informes sobre esta campanha bélica, sacumé... as bichas estão dentro da minha CPU... inevitavelmente questões de segurança nos levarão para a clandestinidade.

Câmbio final.




Quinta-feira, Julho 15, 2004




AVANT PREMIÈRE

Grande furo de reportagem para o Repórter Vrum-vrum "o que enche a fuça mas não perde um!"
Nesta noite ahe foi a estréia pública do brasão do MC Ubá, cuja criação teve a participação da minha amiga Chris, grande Ubádesigner que também pos o dedinho nos nossos adesivos magnético-volúveis que transformam nosso sério carro de trabalho no já lendário Vrumóbile.
Ficou massa... e a foto é do casaco do Emerson... sem o Emersonm dentro... que não cabia em si de contente!
(quaaaaaá...x 4).





ENQUANTO O POTÁSSIO DISSOLVE...

Cara... acordei com caimbras homéricas. Caimbra é certo, mas "acordei" já é retórico, na verdade estava naquele pisca-acorda infernal. Sono com gagueira!
O fato é que fico tentando relacionar todo e qualquer sintominha de merda com outras causas de maior gravidade e ahe, bro... não sobra sono para resistir. Finalmente estou aqui a screveire rapidinho enquanto um pedaço de potássio efervescente derrete na água do copo em frente.
Como vão ser só 5 minutinhos, minha memória de curto prazo ainda saboreia a minha neta assistindo o filme do Peter Pan comigo... e eu assistindo a ela, que é espetáculo muito mais produzido.

- Vô... deixa eu fazer um travesseiro na sua barriga?

Isto significa em código de Ana "estou com medo desse Capitão Gancho ahe, cara..." e a guarita (craro) é imediata.
Na verdade, na barriga sou dotado de sensores especiais que detectam cada tremelique de neta e dá para sentir cada susto e retesada, com intensidade e em tempo real, agora a conexão é completa. Minha barriga anda tão sensível que devia ter aquele escudinho do fabricante do chip colado no umbigo: "ESTE AVÔ VEM COM UP-GRADE INTEL".

Rememorar a cena pelos olhinhos dela, agarrada no topo do meu estômago, me devolveu o sono e também... a porra da pílula já está mais que derretida...

Como termina esta cena ? É fácil... eu acho que estou como o Capitão Gancho... ainda tentando flutuar no ar com o restinho de pó de pirilimpimpim da minha fadinha e reunindo pensamentos bons que me mantenham voando.
Lá embaixo na água, fato, esperando para me engolir está um crocodilo verde enorme com um relógio no bucho que não para de bater... tic tac tic tac... dá pra ouvir junto com a ventoinha do PC...

Isto me lembra 3 coisas: que eu sou do tempo que os relógios faziam tic tac, que são 4:07 da matina e que eu espero que a porra do crocodilo tenha alergia a potássio puro! Bebi...

Boa noite!




Domingo, Julho 11, 2004


O AFINADOR DE PIANOS

A convivência com a comunidade de cegos na Urca é muito estreita desde antes de eu me lembrar de alguma estória qualquer. Aqui está localizado o Instituto Benjamin Constant que cuidou e educou várias gerações de "deficientes visuais", que é o eufemismo delicado que as pessoas ditas normais usam para suportar seus pruridos e preconceitos.
A questão é que a todos falta algo que faz uma pequena ou grande diferença sob o crivo exigente dos normais.
No meu caso dizem que é juízo e pode acrescentar nisso também o olfato... é isso ahe: eu sou um deficiente olfativo e doido.
É claro que isto é bem menos opressivo socialmente dada a capacidade de esconder tais faltas.

Não sentir cheiros tem suas vantagens e eu lembro de grandes pesqueiros na Praia Vermelha, já lá junto ao costão do Forte, onde para se chegar nas lagostas e polvos criados eu tinha que atravessar com meu barco (o falecido em incêndio: Nuno IV) a faixa de esgoto da cidade. Eu era o único que conseguia na boa.

É claro que tudo lá pescado era grande pela dieta e confesso, jamais consumidos pela minha família. Foram todos vendidos para os militares, ali mesmo na rede de vôlei... que como as lagostas eram (dizem as más línguas), tinham chifres grandes, eram casca grossa e viviam nas costas do Brasil.

Fazer o que... com 12 anos de idade eu tinha dívidas atrozes mas era o único garoto que tinha seu próprio barco. Muito bom para um sem-nariz.

Mais tarde fiz carreira na Souza Cruz como especialista em tratamento de fumos e formulações de aromatizantes e edulcorantes (flavoring & casings), depois de aprender, por conta própria, as nuances de coloração da sujeira, nas palmas das minhas mãos, deixada pelos açúcares e veículos solventes.
Assim eu podia dizer sobre sua concentração mas não sem antes leva-las ao nariz, como faziam os experts ingleses, meus mentores.
Outra vingança particular contra o establishment: me consultaram profissionalmente a vida toda sem jamais descobrirem que eu podia pescar na merda, sem perceber a nhaca.

Tenho muitos amigos surdos também, para os quais eu podia escrever cem livros, só de nossas aventuras juntos mas hoje, mesirmanos, é a vez dos cegos.

Profissionalmente os cegos eram admiráveis no que faziam com as mãos e sempre se destacaram como massagistas, fisioterapeutas e/ou com os ouvidos, porque era de lá que saíram os mais renomados afinadores de instrumentos musicais. Todos com ouvido absoluto.

Assisti algumas vezes o mesmo afinador em ação nos pianos aqui na Urca e um deles era famoso porque, ao terminar um trabalho, pedia licença para sentar-se ao instrumento e arrebentava em um clássico bem rebuscado ou num chorinho maravilhoso, que ele sabia ... sempre era seu granfinale.
Ele dizia que era como uma parteira velha... que depois de limpar a criança pedia para nina-la ao colo um pouquinho. Gostava muito do que fazia e era um perfeccionista.
Lembrei muito dele esta semana em Ubá... e vocês não tem a noção da sonoridade de uma flauta tenor de prata dentro de um tanque vazio de 30 mil litros.

Foi minha cerimônia particular de inauguração da obra.
A música escolhida para afinar a criança foi o Carinhoso... a flauta era uma Armstrong 120 velha e o tanque... um legítimo Gimenez 2004 de aço carbono novinho... maaaa-raaa-vi-lhooo-so!
Não há reverbere de catedral que se compare ao carrilhão de ecos e sons multicores que chicoteiam as paredes, até que tudo se encaixa em um único vibrato capaz de arrancar do peito uma parada cardíaca aos desavisados e mortais... normais.
O som é indescritível... e o cheiro? Não sei dizer, cara!




Sexta-feira, Julho 09, 2004


MOTO-SERESTA?! EM UBÁ, PODE...

... Quando dei por mim, quarta última, lá em Ubá... estávamos, eu e Dr. Hésio, nos descobrindo dois chorões da gota.
O gozado é que o pessoal em volta estava todo vestido de couro preto, correntes e bandanas mas o som rolando era do Pixinguinha, Lupiscínio e outros. Escutando somente, os vizinhos diriam que era uma reunião de seresteiros... mas vendo e ouvindo, parecia um filme chinês... e daqueles mal dublados. O enredo era um, o figurino era outro e a trilha sonora mais despernada ainda.
Descobrimos também (finalmente) porque um amigo nosso de Ubá vai num encontro sim e outro não: no sim ele foge de casa sem avisar... no não ele fica em casa limpando a barra pra próxima fuga!

-... benzinho... tá vendo só? Todo mundo foi pra Cabo Frio e eu fiquei aqui te fazendo companhia...

Bem, já vimos que o cara não vai na próxima, né? Mas tava lá cantando e bebendo cum nóis tudo... era o dia sim!
Até quem não era muito da serenata acabou aderindo, sô... então... pardal que anda com morcego acaba dormindo de ponta-cabeça, né uai?!




Domingo, Julho 04, 2004


Não precisa treinamento... qualquer criança opera...

Mas me dirão os senhores: mas é tão prático e tão robusto ?
Minha resposta é a resposta de seus problemas... o SUPER- MOTO ELEVATOR VRUM-VRUM é a sua tranqüilidade para embarcar sua motocicleta no seu caminhãozinho que é alto pracarai e contar com os seus vizinhos, que fogem quando suspeitam que você vai viajar e eles serão escalados (todos os 5 necessários) para empurrar sua jaca velha numa prancha inclinada.
Agora você poderá faze-lo sozinho sem correr os riscos de arranhar sua amada moto... e muito menos ser taxado de abusado só porque acordou uns amigos as 3 da manha, para retirar sua amada da carroceria completamente enlameada. Amigos afinal servem para que catso?

Mas voltando a alta tecnologia em içamento de motocicletas, temos sido intensamente pressionados pelas Organizações Tabajara, que inconformados com sua moscada em não sacar este nicho dos desejos humanos, tem nos assolado com inúmeras propostas indecorosas e chantagens comerciais para conseguir nossas patentes comerciais.
Chegaram mesmo a nos ameaçar de envolvimento na morte de Dr. Lineu ... mas agora passado o perigo, podemos trazer à luz este projeto revolucionário.

Foi como podem ver testado pela nossa equipe (Eu e o Rui) que não saiu na foto... quem vos fala porque estava clicando a maquina e o outro mediante a explicação até razoável à luz de aventuras passadas : "...eu não fico em baixo dessa sua trapizonga nem por um cacete... tô fora..."

Tirando os problemas com a coragem dos nossos pilotos de teste e talvez, as encrencas judiciais com o Dpt. de Parques e Jardins e uma ou duas ONGs ambientais procupadas com a saude da arvore... no mais tudo correu bem durante o teste.

O único probleminha é que para tirar a Azulona 90 cm do chão é preciso prender o MOTO-ELEVATOR a uns bons 5 metros de altura. Como eu não espero crescer mais e nem carregar uma escada magirus na pickup... o jeito é esperar a invenção do ELEVATOR-ELEVETOR e naturalmente depois... comprar um caminhão munckado para carregar toda esta merda junta.
No mais é prático... Rufinão (o inventor chefe da tribo) inventor da galocha... deve estar orgulhoso de mim!
... façam fila senhores ... só tem na minha mão e vai acabar... aceitamos cheque borracha, vale refeição, bônus de guerra , carnê baú... ações da Boi Gordo...

NB: moto não inclusa!




Sábado, Julho 03, 2004


O ALMIRANTE NEGRO
(foto e citações de texto do livro de Edgar Morel e do Portal Revolucionário Brasileiro)

João Cândido Felisberto

Líder negro brasileiro (1880-1969).
Gaúcho, representou a luta pela igualdade dentro dos navios, a luta contra a chibata que massacrava os marinheiros como em época de escravidão.
Filho de ex-escravos vivia na fazenda de João Filipe Correia até ser mandado para a marinha para ser disciplinado, por ter agredido o filho do fazendeiro.
Na marinha rapidamente foi promovido a cabo e na mesma velocidade foi rebaixado a marinheiro por mau comportamento.
Em uma viagem a Inglaterra conhece uma marinha organizada e chega a assistir uma reunião sindical, fica espantado com a diferença de tratamento entre os marinheiros ingleses e brasileiros.

Ao voltar vai a um encontro com o presidente e pede a ele o fim da chibata. O pedido não é atendido.
A República só entenderia por meio de revolta, a qual viria a acontecer no dia 22 de novembro, depois de um marinheiro ser condenado a 250 chibatadas, mais 225 do que o número permitido pela lei dos mares.

Espadas e baionetas foram as armas de combate na guerra que se deu dentro do navio. Depois dos marinheiros terem o domínio sob o comando de João Cândido passaram a bombardear com canhões de pequeno calibre o Rio de Janeiro e Niterói. No dia 23 de novembro foi dada a anistia, a qual não durou nem dois dias. O governo se aproveitando, caçou os marinheiros e jogou João em uma pequena ¿solitária¿ com mais 17 presos, de onde só saíram vivos dois, entre eles João Cândido que iria agora para uma prisão comum e só sairia em 1910 com a ajuda da Igreja Nossa Senhora do Rosário, protetora dos negros, que contou com a ajuda de 3 grandes advogados que conseguiram sua absolvição no julgamento.

Esta solitária era uma cafua escavada na rocha, onde mal caberiam 4 presos e lá foram enfiados 18. Morreram asfixiados em pouco tempo com dor e sofrimento mas não foram retirados mercê uma versão oficial de que a chave teria sido levada por um subalterno durante o final de turno e que a cela teria sido caiada há pouco tempo e o cheiro da cal os entoxicou.
Na verdade, jogaram pó de cal virgem em um respiradouro e não se registra quem e nem a mando de quantos.
João Cândido foi também,segundo registro levantado por Edgar Morel no seu livro A revolta da Chibata (empastelado e proibido pela Ditadura de 64), ilegalmente internado no Manicômio da Urca onde permaneceu permanentemente dopado por anos, recolhido e incomunicável.

Sua saúde após a libertação estava abalada, não conseguia emprego pela fama de rebelde e subversivo e teve muitas tragédias familiares, tais como a morte da sua primeira esposa, o suicídio de sua segunda esposa e o suicídio da primeira de suas 4 filhas.
Só em 1930 conheceu a mulher que o acompanharia até a morte dada por câncer no intestino, em 1969.

Cheguei a vê-lo uma ou duas vezes carregando peixe no antigo entreposto de pesca da Praça 15. Mesmo velho e combalido, transmitia uma aura de nobreza e respeito de que a natureza reveste alguns até o seu final.
Lembro que seus olhos eram duas lareiras e te fitavam como se quisessem olhar dentro da tua alma.

Apesar das injustiças cometidas... João morre se dizendo um homem da Marinha.

Esta estória ainda hoje parece incrível para a maioria das pessoas e desconhecida para quase a totalidade dos jovens que se dizem politizados.
É mais fácil que conheçam a letra de um samba como este:

" ... conhecido como o Navegante Negro
Tinha a dignidade de um Mestre-sala
Foi saudado no porto pelas negrinhas faceiras
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam nas costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão que a exemplo do Feiticeiro cantavam então...

Glória aos piratas a cachaça e as sereias
Glória a farofa as, as mulatas e as baleias!... (Aldir Blanc e Bosco)¿


Tudo isto foi muito cantado pela Elis com um balde de emoção... sempre.Agora voce tambem sabe porque.
Ela conhecia e lembrava desta estória em cada frase da letra.

Minhas filhas conhecem esta estorinha perdida desde garotas e espero, vão conta-la para as minhas netas.

Não é um conto galante de anéis e gnomos... mas também não aconteceu em um perdido reino Inglês... foi ali mesmo do meio da Baía de Guanabara... bem na porta de casa.
Sai correndo e vai contar logo para os seus filhos que é boa...e carioca.