Contos e crônicas sobre tipos interessantes, causos e lugares conhecidos durante mais de 40 anos viajando sobre motos, barcos de pesca e botinas. Colaboram cariocas, coroas nascidos nos anos 40 e que se recusam a pendurar a mochila.

Segunda-feira, Novembro 14, 2005



A IDADE DO FERRO

Passei boa parte da minha infância e juventude construindo e perdendo arpões.
Arpão só se perde quando ele era bom, ou seja "grudou e peixe levou".
Tem é claro roubo e perda... mas ahe se fazia outro mesmo e cada vez melhor.
Os últimos eram elaborados e com material de primeira, mas os da infância eram de baixíssima tecnologia: um vergalhão de construção de ¼ de polegada ( 5 mm maomenis) e um elástico de câmara de ar.
Como ninguém ia dar um arpão ou um esmeril para uma criança de 10 anos o jeito era esfregar ferro em uma pedra tanto para cortá-lo como para fazer as pontas.

A pedra eleita ou era o meio-fio da calçada em frente a minha casa, ou a mureta da Urca em uma fase de tecnologia mais avançada da tribo. A gente saía da Ponte até a praia da Urca esfregando o vergalhão geralmente à noitinha que dava para ver as fagulhas.
Quando o aço era mais duro tínhamos que ir até o Forte de São João.

Um novo ferro quase sempre era sob encomenda para a testa de algum peixe escapado e quando assim era... Íamos fazendo planos de guerra ou até culinários.

Várias borrachas foram testadas como propulsoras e a de luxo era o látex de soro comprado na Pharmácia. Os chapes das pontas foram testados a exaustão bem como o comprimento do ferro. Éramos como jogadores de golfe com aquele saco do Cady... me passe o número 3 James...

As pontas achatadas requeriam fogo e muita martelada, mas acabaram se mostrando as mestras e sempre tínhamos uma explicação teórica para seus resultados infinitamente melhores. É que as escamas direcionavam a ponta chata para dentro da carne com muita facilidade para aquele ferro de 2 metros e bastava um toquezinho de elástico e tirávamos montanhas de cocoroca criada, que com o mínimo de prejuízo ainda ia pulando para a frigideira. Uma crueldade eu sei... mas uma delicia no limãozinho e sal.

Anos mais tarde lendo pela décima vez o livro EXPEDIÇÃO MOANA em que 3 franceses dão a volta ao mundo pescando, descubro minha tecnologia tal e qual eu construía e usei até hoje... na mão dos mergulhadores polinésios.
Lá chamam de Patiá-patiá. Só quem usou o artefato sabe como é bão!




Terça-feira, Outubro 18, 2005



MEU ANJO DA GUARDA

É sabido que eu tenho tentado me esfolar há 57 anos, usando os mais diversos métodos em terra mar e ar, mas até hoje ele segurou todas. Sempre tive curiosidade de saber como era a cara dêle... do meu Anjo da Guarda.
Hoje eu tive a visão... é insólito.
De capacete de alpinista, com uma roupa de neoprene de mergulho, mas por cima um colete à prova de balas, segundo ele disse ou o que eu entendi porque estava com uma mascara de esgrima no rosto... "fazia um calor incrível".
No braço direito um escudo de kevlar e no esquerdo um computador-profundímetro. Dava para ver que os bolsos do colete transbordavam de seringas, soro anti ofídico , anti hemorrágicos, Capotem , insulina ...o escambau.Só de gaze parecia uma arvore de natal.

No pé direito um pé-de-pato Jumbo e no esquerdo uma botina Solomom gasta de dar pena.
Enfim... uma visão dos inferno que paro de descrever por aqui em meio a cordas redes e mosquetões.

Tive apenas mais a curiosidade de perguntar... porque apesar de ter um par de asas enormes ele tinha preso entre elas... um paraquedas novinho em folha.
êle me respondeu em alto e bom som:

- Porque você... seu babaca ingrato... tem Anjo da Guarda mas eu não... e o Patrão cortou meu seguro-acidentes em junho de 48. Agora vê se continua dormindo ahê ô Fariseu... e me dá um tempo porra que eu ando pregado!!!
Perdão Chefe ... perdão... foi só um recurso de imagem retórica carioca!




Quinta-feira, Outubro 13, 2005



SEXO E PETRÓLEO

A notícia esteve até para ser veiculada no Bom Dia Brasil, mas parece que o Renato Machado riu tanto que engasgou com seu Chardonnay e desistiram de tentar lê-la.
Parece que o Primeiro Ministro do pequeno emirado de Al-Barhang aceitou aumentar sua produção imediata nos poços junto a OPEP, mas havia um protocolo que tradicionalmente obrigava o Emir a abrir pessoalmente as válvulas de controle, ainda que simbolicamente.
Acontece que o Emir sumira há quase três meses sem deixar traços.
Até a CIA foi acionada e dois informantes selecionados contaram tudo: o Eunuco chefe da segurança do secretíssimo harém e o médico particular do Emir, o notório Dr. Katu Abbas, um especialista em energéticos e afrodisíacos.

O Emir estava havia meses, no harém em companhia de uma Carioca chamada Jupira das Neves por quem se apaixonara e que chegou nos emirados como governanta e cozinheira de um jogador de futebol também brasileiro.

O Dr Abbas conta que Jupira foi praticamente tomada à força da casa luxuosa do craque Ronaldinho Chulapa, que foi atacante do Carimbó FC de Cuchurumirim Açu no Maranhão e atual artilheiro do campeonato de Al-Barhang. Isto se ele renovar com o Al-Barhang.

Os tablóides locais asseguram que isto não ocorrerá se o Emir não devolver Jupira ao lar do craque Chulapa.
O Eunuco chefe, já sob a proteção do Dept. Estado Americano, declara que Jupira é uma mulata lindíssima que ascendeu em pouco tempo a um lugar de destaque no Harém e que também agora faz exigências pessoais.
Teria sido convidada como Madrinha da Bateria da São Clemente e Rainha do Suvaco do Cristo para o Carnaval de 06 e exige seu passaporte e liberação imediatas para vir ao Rio.

O Dr Katu Abbas afirma ainda, que o Emir é dependente de uma droga chamada localmente de CHARTE que consiste numa beberagem experimental. O chá de raspas de tromba de elefante ainda é experimental e transforma o membro masculino em um órgão com extremas capacidades de movimentação e habilidades motoras incríveis durante algumas horas... mas que apresenta ainda efeitos colaterais imprevisíveis como reflexos paquidérmicos condicionados mal sublimados.
Na verdade neste exato momento o Emir está sendo recolhido no seu oásis, em uma ambulância com um generoso tufo de grama preso em seu anus.

Esperamos agora, que diante do reaparecimento, ainda que acidental, do Emir, a produção de petróleo aumente, que o time de Al-Barhang ganhe o campeonato, que a paz volte ao harém, que GRES Unidos de São Clemente arrebente na avenida com sua nova madrinha, que Ronaldinho Chulappa renove com o clube e é claro... que o Emir desista de decapitar em praça pública o Dr. Katu Abbas a quem jurou jihad eterna.

Na verdade consta que Dr. e o Eunuco já estão seguros sob programa de proteção a identidade, negociando os direitos das suas saga e fuga com o Steven Spielberg e montando de sociedade um Restaurante Natural em São Francisco. O agente da CIA cujo codinome seria O Rato... descobriu-se afinal... que na verdade é a Marieta Severo.




Terça-feira, Outubro 11, 2005



DESARMAMENTO

Alguns amigos meus tem discutido comigo a respeito deste referendum. Um destes amigos tem um filho vitimado por uma bala perdida disparada por um policial em uma briga de rua e que o deixou paraplégico.
É um cara maravilhoso que superou todos os obstáculos e tem uma vida cheia e acho... feliz.
Apenas a sua imagem já deveria fechar a questão e me levar a apertar a porra do sim sem discussão.Eu mesmo já levei tiro na rua com e sem endereço então não me venham falar de insenção... I get the rigth to sing the blues brother!

Só que a coisa não é tão simples. Simples é comprar uma arma ilegal sem traços e sem marcas.
É como um frasco da morte tipo one way que você usa e joga fora.
94% dos crimes com arma de fogo são cometidos é com armas deste tipo e por esta mesma razão: não ligam o autor ao possuidor da arma.
Querem uma prova mais visível?
Você já prestou atenção em um PM com duas armas? Uma é da corporação e rastreavel se for usada... a outra é fria como um cu de pingüim acreditem.

Não é preciso ser do ramo para saber disto, apenas observe. O uso desta mesma arma é preferencial e pródigo por ser descartável e não rastreável. O defunto jamais será ligado a ortoridade.
A probição da venda legal (que é complicadíssima faz é tempo) apenas vai valorizar preços e as fontes.

Nenhuma blitz vai mais registrar ocorrência... exatamente para desviar uma arma conseguida assim, apenas vão seqüestra-la e soltar o portador.
Este referendum é outra campanha como o "OURO PARA O BEM DO BRASIL"... me lembra muito as coxas da partner do mágico mambembe.
Todo mundo olha o seu rebolado... na direção errada... enquanto o truque rola é do outro lado do picadeiro. Enfim a mágica será feita mais uma vez.
Passei parte da minha juventude conseguindo armas clandestinas por motivos políticos e sempre sem muitas dificuldades nesta Terrae Brasilis, acreditem.
Lorca afinal dizia que quem não foi ativista aos dezoito não teve coração ... quem for depois dos trinta não tem cabeça.
A possibilidade de eu estar armado... se eu quiser... é que mantém um certo equilíbrio entre os possíveis invadidos e invasores. Ao concordar em entregar para sempre o meu direito de possuir uma arma é mais ou menos como deixar a chave da casa debaixo do capacho da porta.
Se eu fosse um Mariner que viesse "proteger a Amazônia" ia adorar a notícia.Mas sempre vai sobrar aqui e ali... uma flexa e uma borduna pra dificultar um pouco as coisas né meninos?
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Desculpem a agressão com o tamanhão da imagem do Portinari mas estes foram os pixels inferiores que o respeito permitiu. A imagem é linda e oportuna... e foi uma merda de achar bro!




Sexta-feira, Outubro 07, 2005



LOLA´S APPLE PIE

Ele... tinha passado parte da infância e juventude estudando nos EUA e trouxe na memória do paladar, o gosto da torta de maçã americana de Masachussets. Apenas o gosto porque não possuía olfato como eu. É claro que na memória perdurava também côr e textura das massas douradinhas... e também descrevia um ritual de colocá-las para esfriar nas janelas das casas de onde originalmente as roubava... mas respeitando a tradição local sempre!
Ela apaixonadíssima até sua ultima respiração... sentia para sempre todas as sensações dele e só pela descrição que ele fazia em 1930 e lá vai tempo. Ele? Meu pai. Ela? Minha mãe.
Começaram a sua busca desenfreada ali e somente durante a segunda guerra em 42 acertaram a receita... ela no forno das mil tentativas e ele provando todas o malandro... ali no sacrifício direto da fôrma nas janelas das cozinhas... esperando esfriar para poder sentir o gosto das maçãs e da calda interna.

- Tá bom... (dizia) mas ainda não é isso...

A massa, tinha que ser crocante por fora e embebida por dentro e ao cortar permitir a saída de uma fatia inteira das fôrmas... babando a geléia que deveria se formar em torno dos pedaços grandes de maçãs ácidas cozidas no bafo. Desenformar já não era o requisito, porque a versão original deles grudava mesmo no alumínio lá da velha Siracusa... então never mind my dear. De volta para o fogão and try again!

A penúltima tentativa, foi com maçãs realmente americanas... importadas em calda e fatiadas em latas, trazidas pelas tropas da US Navy no cais do porto do RJ.
Tio Sam trata bem seus milicos em campanha não é de hoje.

Ela faz então "a torta" , que fica perfeita, mas provou as maçãs em conserva, antes de usá-las e ... matou a charada... eram o açúcar a canela e o limão... a proporção exata de cada? Achou por puro feeling brasileiro mesmo.

Tinha feito duas massas, uma era de backup para testar a sua segunda versão, agora Tupiniquim do recheio Gringo, mas desta vez preparado ali no mármore da sua pia.
Acertou na mosca... como a bala que matou o Kennedy... a primeira torta dos enlatados foi desprezada ali mesmo... e a segunda... ahhh essa foi a avó de todas as tortas epopaie que traçamos por três gerações na família.

Criança ali nascida... que não fosse tarada pelas suas tortas, ou pelas suas panquecas... e não fosse Fluminense roxa antes de falar... acrescento... era sumariamente eliminada desta família com um teste considerado por acá ( ou alhá...yá no lo se más como hablar eso...) mais preciso e antigo que o DNA.

Mas era assim que a Abelhona Lol atraía as abelhinhas em volta dela... sempre como viveu tambem...docemente!




Quarta-feira, Setembro 21, 2005



AI QUE MEDA!

Eu tenho um amigo, o Fernando Gaivota, vulgo Fernão Capelo, que voa de asa delta desde os tempos das asas jurássicas, daquelas jacas antigas que em uma primeira olhada já se duvidava que pudessem sair do chão.

Seu maior desejo depois de voar era mergulhar... e o meu era... e ainda é, o de voar.
Já que ambos poderíamos treinar um ao outro...uma única coisa nos impedia : a meda!

Bem, a vida me deu tambem outros dois amigos, cuja estatística de risco pessoal indicava que um ia morrer mergulhando e o outro ia morrer voando.
Américo Santarelli e Paulo Mamão... resolveram contrariar as probabilidades dos números e trocaram seus bilhetes de partida.

O medo de água do Fernando é atávico e o meu de voar estava mais ligado ao meu peso... porque eu era algo decididamente anti aerodinâmico na época. Apesar de ter me atirado de paraquedas... não era a mesma coisa... até mesmo no meu primeiro salto, contei com a incentivadora botinada no cu, dada por um sargento impaciente.Eu era uma visita e estava entupindo a rampa para os profissionais com minha exitação medal afinal merecia...
E na verdade por mais que pareça um vôo o salto é uma queda mesmo... não é a mesma coisa, ainda mais com paraquedas militar que não dá o menor controle.

A primeira vez que subi na rampa da Pedra Bonita com o Fernando, fui para ver a coisa de perto e para trazer o seu jipe na volta. Este Jipe aliás também já saltou da Pedra abandonado por uma pilota desastrada... mas isto e uma outra estória.Salvaram-se todos.

Ao chegar na rampa de tabuas, apesar de umas 30 pessoas sentadas, o silencio era de uma catedral. Saca aquele ladeirão de madeira que acaba no nada? Pois é... sinistro para os leigos!
O morrote estava cercado de nuvens e o pessoal estava esperando o tempo abrir para saltar.
As asas , algumas, já estavam pré montadas na orla do bosque e os caras de vez em quando falavam num dialeto estranho que apesar de se assemelhar ao surfês, era crivado de palavras estranhas para mim, batizando nuvens e ventos com nomes que eu nunca tinha ouvido. Papo de passarinho acho eu.

Dava para sacar que estavam buscando uma brecha entre os cúmulos e rotores de nuvens brancas que dessem um mínimo de chance para pular.

De repente todo mundo responde a um chamado silencioso e cabalístico qualquer do tempo e começam a se amarrar nas asas alguns terminando de armar cabos ou mesmo fazendo sua montagem total.Parecia que alguem soprou um apito decachorro daqueles que só os eleitos ouvem.
Todos menos um garoto, um tal de Pardalzinho, que desceu no mato e desamarrou dos cactus uma asa encardida que foi branca um dia, de sunga e chinelo põe o treco nas costas e salta antes de todo mundo... na maior intimidade.

Fernando me conta que aquela asa esta armada ali havia semanas e já ficava lá assim mesmo. no tempo e no mato... esperando pelo garoto. Diziam que eram os fungos que a mantinham armada

Vi todos saltarem aos gritos,como cabe somente as aves fazer... nesta epoca eu tinha a saúde, 130 kg, meus cabelos ao vento e o tesão... tudo isso embrulhado em um enorme medo de morrer voando.

A única coisa que não mudou muito foi o tesão... o resto sofreu uma revisão... agora quem sabe eu decolo... Fernandoooooo...





Quinta-feira, Setembro 15, 2005




A CERÂMICA DE CUNHA

Dentro do velho esquema de viajar a trabalho com a agenda cheia só na ida e aventura na volta, saímos da rota propositalmente em Garatinguetá e nos embrenhamos pela Serra de Cunha.

Era um plano velho nosso, torcer essa rota e ficamos menos de 4 horas por lá, porque São Pedro nos ameaçava com uma chuva- feijoada (daquelas que vem com tudo dentro) sobre nossas cabeças e a velha pickup que atola até com mijo de cachorro nas rodas.
Enfim foi a pré-viagem que antecedeu uma investida maior e mais tranquila na região.

Eu faço cerâmica, mas vou parar de dizer isto depois de conhecer o pessoal de Cunha. Cheguei em casa com ganas de jogar as poucas peças minhas (as que ainda tenho) pela janela.

Fui conhecer os fornos Noburigama e a cerâmica Raku que, eu amo nos meus sonhos mais loucos e gostaria de fazer um dia.

Cunha fica a 63 km serra acima de quem sai da Dutra não tem erro.


Estive em alguns e mais representativos ateliês da vila, o José de Carvalho, o Luis Toledo, o da Mieko e do Mário e armei o roteiro dos outros que não pude ver para uma volta mais tranqüila.

Mieko Ukeseki é parte da história de Cunha e fez parte do grupo que implantou a cerâmica tradicional japonesa há 30 anos atrás. Escolheram a região pela abundância de materiais da terra e a topografia de montanha propícia para a construção dos fornos Nuburigama.
A própria Mieko nos recebe com sua gentileza calma e abriu as portas de todos sites da sua propriedade, desde o ateliê até a área de fornos e preparo de argilas e pigmentos.

A mágica alquimista de sua arte está ligada indissoluvelmente às forças da terra, do fogo e dos segredos dos minerais e suas cores e propriedades.
As suas formas e as de Mario Konishi são lindas e vão de encontro com os desejos dos olhos e do tato, mexendo não só com as cores e matizes mas também com o imaginário dos gestos e movimentos do autor ali eternizados pelo fogo.
São objetos ao mesmo tempo sutis , belos e de uma força incrível.A gente tem vontade de possuí-los a todos.

Olha cambada... aproai vossas motos e pickups para Cunha que é imperdível.
A estradinha , a cerâmica, a hospitalidade e a truta no molho de pinhões pagam às 4 horas de estrada... mas sei que tem nego que faz em 3!











Segunda-feira, Setembro 12, 2005



A FOCA

Deixa eu esclarecer logo: eu sou uma foca. Entrei na água dessa baía durante o outono e ela estava linda e fresca.
As savelhas e lulas estavam dando mole e a água era cristalina e quente aqui para os nossos padrões Árticos.

Estava tão agradável que eu nem voltava para a costa, vinha apenas até a superfície uma vez ou outra, para tomar um ar fresco.
De repente, como tudo acontece por aqui, soprou um vento frio que congelou a superfície da Baía, mas como ele estava lá em cima e eu aqui em baixo não me dei muita conta do gelo.
Na verdade eu até saquei a mudança, porque senão eu não seria uma foca competente, mas a verdade é que o pensamento que se seguia a estas percepções, era composto de duas idéias: "... vai mudar..." e" ... é só mais um mergulhinho". Era uma vida dura... mas porra... eu sou uma Foca ou não?!

Quando me dei conta, só havia O Buraco. Tudo bem o gelo ainda está tão fininho que dá para eu roer até meu barrigão poder passar.
Mas aí veio o pensamento traiçoeiro de que se engrossasse, o gelo é claro, e eu estivesse em terra... já não poderia pegar aquele meu bacalhauzinho toda manhã. Então deixa que amanhã eu dou uma roída nesse gelo e saio. Mesmo me dando conta de que havia risco fui ficando,ficando... até que minha imagem refletida no vidro me deu conta de que eu estava gorda e mais lenta também, então resolvi roer o vidro frio nesta manhã.

Durante a tarefa descobri que era mais duro do que eu supunha, mas mesmo assim abri o suficiente para meu focinho caber.

Estou há muito tempo nadando e o frio está insuportável. A coisa mais importante da minha vida agora é O Buraco, por onde ainda tenho um ultimo contato com a vida.
É claro que estou esquecendo de dizer que durante minhas breves respiradas através deste ultimo buraco da Baía, descobri que existe um urso enorme sentado lá fora e que como eu, já não tem energias de sobra para procurar outro buraco no gelo com uma Foca Desesperada dentro... e ambos agora somos forçosamente o destino um do outro. Tenho dores no focinho já lacerado por três ou quatro patadas certeiras do Urso-sem-escolha lá na tocaia. As perspectivas não são das melhores.

Estava feia a coisa... tanto que eu fui obrigado a levantar da cama só de cuecas tremendo de frio e medo, para desligar a bosta do ar condicionado e me embrulhar num cobertor...
Custei pra pregar o olho de novo pensando na foca.

Está quente adoidado... e agora... eu sou um Camelo Errante, perdido há dias num areal da Namíbia.
To fudido mesmo... só tem areia e cascalho à minha volta... e esta sede horrorosa...





Sexta-feira, Setembro 09, 2005



O CAMIRANGA

O Tom Jobim (que tem nome de passarinho) era fã de carteirinha, como eu, do Camiranga.

O nome fantasia do cara é Urubu-rei, mas a firma é Camiranga mesmo.
Dizem os urubuzólogos locais, que seu ultimo reduto aqui no Rio de Janeiro, na cidade digo, foi a Lagoa, quando ainda nem era Rodrigo de Freitas.Ele não se extinguiu... apenas migrou prevendo a caca que isso ia virar e já mostrando sabedoria.

Já no império os bichos iam rareando, mas consta que os escravos Pretos Velhos (Muringangas como eram chamados... devem ter algo de coincidencia fonética) usavam muito interpretar seu vôo e atitudes para prever muita mudança natural.

O meu Guru preto lá na Bahia... Mestre Satu, neto de escravos, falava muito no Camiranga e sobre como os outros bichos do mato seguiam seu planeio. Dizia que nem larva tocava em carcaça caída sem antes se certificar da aprovação do Velho Urubu.

O papo era de que se tratava de uma espécie muito vivída... e com mais tempo de janela que dona de puteiro. Sabia de todas as mutretas da floresta e se ele recusava o rango... nenhum bicho com o mínimo de conhecimento e respeito, tocava no prato.

E ele ficava voando lá em cima com aquele olhar agudo... só reunindo mais experiência a cada volteio, capaz de ficar horas no ar sem bater as asas, aliás o que qualquer Urubu ordinário aqui faz com mestria... como herança do rei.

Vi varias horas de fita de filmagem sendo queimadas pelos gringos, lá no alto do Corcovado, registrando sua arte de planeio e domínio dos ventos termais.

Ouvi um alemão explicando para o outro que perguntara "Que que é isto?" (um was its daas fonético e gutural... que meu alemão é uma bosta).

Só peguei no vento o resto da resposta "...eine shwartzfluguenzoigt..." (uma coisa preta que voa).
Queria ver se a explicação tão simplista caberia para o Camiranga que é colorido e tem o voo muito mais majestoso.

Se você olhar bem a face de uma Águia Careca dos EUA, está lá estampada toda a belicosidade burra do país que ela representa... parece até um pouco com o olhar dos Bush... presta atenção. Sorry bicho...se a águia me ouvisse talvez parasse de procriar de uma vez.

Agora fala sério... saca só o Camiranga, é firme e transmite logo de cara, confiança,atitude, humor, tranquilidade e a experiência de quem sabe.

Sei que seria muito difícil e politicamente incorreto, nesta altura do nosso campeonato aqui nas hostes Tupiniquins... fazer do Malandro Camiranga o símbolo nacional brasileiro.
Até mesmo porque os nossos abutres neste momento tem pecado muito pela onipotência e burrice... o que faria um estrago fudido na imagem do Camiranga.

Enfim, como eu vivo de vender minha experiência e enxergo meus Clientes queridos como bichos de sucesso nestas plagas... estou assumindo o Camiranga como símbolo legítimo dos Consultores que sabem planar com sabedoria e dividir seu conhecimento com o resto da floresta . Falei? Registre-se logo em ata porra...antes que o Jabor me roube a imagem do bicho!

Ave... Camiranga velho!





Terça-feira, Setembro 06, 2005



Já estive em muita cidade pequena de interiorrrrzão, que feitas as contas econômicas e políticas eram para ter se acabado todas.
Às vezes uma monocultura que acaba, uma industria grande que fecha, um trem que não passa mais por lá... tem vários fatos geradores desta decrepitude.
Tenho visto também lugares que sobreviveram ou até prosperaram em volta de uma turma de fissurados ou da idéia-mãe de alguns.

Vi isto acontecer em Brotas com o turismo de aventura, Petrópolis com a Rua Tereza, Penedo com a hotelaria temática e muitas outras.

Mas nada suplanta Conservatória. Com a queda do cultivo de café na região nem havia mais razão para permanecerem ali a não ser os apaixonados e os românticos locais e foram eles mesmos que fizeram a região renascer das cinzas.
Mesmo já sendo tradição a serenata e a seresta (há diferenças ...me explicaram os experts) em 1938 dois irmãos recrudesceram o hábito de faze-las, com tal fogo que hoje a cidade vive da música nas ruas. Um deles morreu em 2002 mas o irmão remanescente, está vivinho aos 84 e participando de todas.
Me emocionei com as paradas sob os balcões e a forma respeitosa como cada estabelecimento desliga seu som interno quando os velhinhos passam arrastando atrás de si a ratatuia centenária de seresteiros. É de arrepiar creiam. Lulu chorava como uma bezerra arrancada das tetas.
Está o ahê o Herói da Resistencia Local na foto, que para ter iluminação justa com esta câmera não tão justa, eu invadi uma lojinha de chapéus, exatamente as 23:45 e tentando usar a sua iluminação interna.
De lá de dentro descubro, depois da foto saquei, que a loja deu apenas uma paradinha nas vendas para ouvir a serenata, mas que estava cheia.
Pude notar que na janela, de mãos postas, uma velhinha se revezava entre uma prece para o Gilbert e as letras das canções que ele puchava. Ao sair percebi que... todas as lojinhas e restaurantes estavam abertos e cheios. Se a drogaria estivesse aberta tinha vendido um barril de xarope pra garganta e um carro de band-aid pra bolha. A idade média do populacho à estas horas da serenata, beirava os 65 aninhos. Eu ali era o caçulinha mesirmanos.

Deu para sacar pelo fervor local, que lá todos devem muito a esta idéia-mãe... Todo restaurante e hotel emprega muito e emprega artistas que para lá se mudaram... até os vira-latas de rua estão com as costelas bem forradas e escolhendo turista sem pressa nem disputa entre as mesas dos 100 bistrozinhos. Quem não tinha carteirinha do Kennel Club tinha que entrar na fila pra afagar um vagabundo bem-nutrido daqueles.

Não desvendo mais, ligai vossas bikes e vão lá conferir que é perto, catso.
Preparem a grana prucausodeque... se a sua garupa é luxenta... tá assim de "5 estrelas" te esperando! Procure e negocie numa boa.Tem até duas fazendas hotéis enormes destas de fuder regime.
Eu sabia disto tudo... mas nunca tinha visto de dentro. Vai lá antes que vire Disney... ou acabe.
Vou voltar lá... e desta vez com a flauta! Serenatar até cair sentado com meu amigo Giolberte sua gang de insones!






















Quinta-feira, Setembro 01, 2005

BICHOS...PERDÃO!

Tenho me sensibilizado com algumas injustiças que causei a algumas espécies e gostaria de tentar remenda-las de alguma forma.

Eu tenho aqui um gato vagaba daqueles cor de fogo, que no passado já esculachei por escrito por acha-lo meio viado. Nenhum preconceito com ambas as espécies. .
Pois é... o cara tem um sexto sentido ligado em mim e quando percebe que eu não estou bem, arromba a porta do meu quarto (é um bicho bem nutrido) e se instala na poltrona em frente à minha cama e fica a noite toda me olhando... como se me dissesse para dormir tranqüilo que ele fica de olho.
Se eu levanto ele pula atrás e vem comigo colado como um cão, que suspeito possa ter reencarnado no bicho. Suspeito até de um em especial.
Só se deita após eu me deitar.

Tenho mais explicações para cães e gatos de bronze do que para lápides de família nos cemitérios.

Tenho sido mordido por mosquitos neste veranico e pessoalmente prefiro ser chupado por fêmeas por mais 30 verões do que comido em um só inverno por baratas... é mais jogo hein... (só as mosquitas são hematófagas) fala sério!
Porém acho que devem estar estranhando um certo gosto rascante no seu rango ultimamente.
Informo para sua ilustração *(das mosquitas é claro...) que se trata de uma droga chamada Camptosar que acho é do laboratório Roche... sei lá!

Ficam aqui minhas dicas gastronômicas a saber:

1) Sou mais palatável por 4 semanas e intragável por 7 dias depois disto, pelo efeito residual do tempero em vossa sopa meninas!

2) Porém como alternativa, neste breve recesso, sugiro ir dar uma picadura no meu oncologista... que é novinho e não tem nem resfriado.
NB.
Por favor ... não mordam meu gato-cão durante o serviço!




Quarta-feira, Agosto 24, 2005





Terça-feira, Agosto 16, 2005



MEU MAIOR SERMÃO

São duas da tarde e eu estou entrevistando em Salvador BA um candidato a operador de caldeiras. Dois pontos fora da curva foram detectados durante a entrevista básica.
Uma é que o cara era diácono de uma seita evangélica daquelas exaltadas (na época isto era raro, ainda mais em Salvador) e a outra era que morava longe pacas.

Para acender as caldeiras da Fábrica em Itapagipe, ele tinha que sair de casa lá em Periperi adespois de Itacaranha. Na verdade nem era tão longe assim, mas ele teria que atravessar a pé e de madrugada o Largo dos Mares em volta da estação de trem e a barra lá era meio boêmio-vagabundal.

Eu fiz de tudo para evitar o papo religioso e até ali tinha me dado bem, mas então quando perguntei se ele não teria medo de atravessar a área naquela hora, todos os dias, ele me respondeu que andava armado.

- Eu ando sempre com um trinta e dois... por isso não tenho medo de nada! (ouvi perfeitamente!)

Achando meio incoerente a afirmação com as convicções religiosas propaladas antes, explorei um pouco mais perguntando se ele não se preocupava, por exemplo, com a polícia... já que andava sempre armado...

- ARMADO? EU? EU NÃO PRECISO DISTO PORQUE JEOVÁ É MEU PASTOR... DELE VEM TODA A GLÓRIA E VERDADE ... E TODOS SOMOS IRMÃOS EM CRISTO... e... WAWAWAWAWAWAWAWAWA... dedo em riste e babando... Bíblia nem precisava decorara tudo... o Sermão da Montanha veio na integra que nem Salomão "em toda sua pompa e Grória... "

Mesirmanos... kilos de retórica Bíblica nimim tadim... baixou o João Batista no candidato e o cara pregou e pregou e pregou... até eu ficar... pregado.

Esta semana passada, mudando de pau pra cacete, fui ao otorrinolaringologista (ufa carai!) que tirou 15 kg de rolha de cêra dos meus... dois ouvidos.Voltaram os graves e os agudos. É que eu tenho o duto auditivo tão de fino trato, que basta enfiar um cotonete que inflama rapidim!
Então... tenho que levar minhas orelhas pro Dr. Rotorrooter de 6 em seis meses para uma geral.Saiu de lá uma sôpa nojenta!

Foi então, que eu lembrei que este já era problema antigo... na porra da entrevista eu entendi que andava armado..."com um 32" e o cara tinha dito : EU ANDO... CONTRITO A DEUS!

Ninguém merece...só eu mesmo!
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Em tempo: ...bem ... fiquei meio sem jeito e contratei o cara... trintanos atrás e que agora (eu soube)... é Pastor... mas que como Diácono na época, tentou me converter sem resultado... durante os 5 anos que durou a sua prédica! Aaaaaafe...




Quinta-feira, Agosto 04, 2005



AMORES DA ESTRADA

Tudo começou com umas carícias despretensiosas mas que eu senti uma certa reciprocidade animal quando a fêmea em tela subiu no cocho de ração e deu uma piscada convidativa com aqueles cílios enormes.
A encrenca destas paixões fugazes é que elas depois não telefonam, não mandam notícias e não respondem meus E-mails (seriam E- múuuus quem sabe). Mas ela sabe que nas noites de lua cheia meus pensamentos serão dela!

Agora falando sério... a bicha não entendeu o fundo diplomático da foto e começou a se empolgar.

Se minha personal-photographer não fosse rápida no gatilho e a bicha um milisegundo mais rápida... ela tinha me acertado uma linguada no centro geométrico das minhas amigdalas, com aquela língua verde-alfafa-ruminada ... eu já estava a meio metro e ainda assim tomei uma lixada tangente na ponta do naso... mesirmanos... não recomendo!

Fatiada no molho madeira até tem jogo... mas só daqui há um tempo!

Mas ela é linda ou não a minha Búfala? 800 kg de charme...







RESULTADO DO CONCURSO POLAR

Ganhou o concurso a minha amiga "Boquirrota do Irajá" que, além de já conhecer a resposta, me passou um esculacho em regra por usar uma piada tão velha.

- Armando seu #!¨%#**## de carteirinha... não tem truque não... o urso tem é que nadar pracaralho porque estão todos no Pólo Norte e os pingüins todos no Pólo Sul... ou então pegar uma carona com Papai Noel que é outro gordo barbudo e #!¨%#**## que nem você!!! Dependendo do que é esse tal pirocóptero você pode sentar em cima e não precisa me enviar nem lavando com álcool!

Olha minha querida e amada leitora... espero que você se recorde do brinquedo, que não tem nada de pornô e que, desde que você mande o endereço, prazeirozamente enviarei um exemplar: de coleção, limpinho e zero-rabo!

Grato por ilustrar de forma tão assertiva o porque eu não tenho mais Livro de Visistas... o "pracaralho" eu deixei intacto porque já é usado até em missa, mas protegi suncê como prometido né querida!? Vai que seu pastor frequenta meu bloguinho... ia cobrar o dízimo do pirocóptero.